Sinto a tua falta como se te tratasses de um membro amputado.
Todavia, seria injusto dizer que és o meu amparo.
Tu és mais, muito mais,
Do que os ossos que sustentam a minha carne.
Sangue do sangue de alguém, todos são.
Tu e eu, somos a única pessoa
Que viveu duas vezes.
Um a um os dias passaram,
Nós vi-mo-los. E chorámo-los.
Mas não fizemos nada.
Nada era certo e ninguém era feliz.
Mesmo assim, era tão bom.
E agora, de repente, tudo mudou.
Hoje, olho em frente e vejo a estrada,
E sei para onde vou,
Mas não porquê.
abelhas, baleias, e pastéis de Belém
Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
A vergonha dos Portugueses
Sempre que conheço uma pessoa nova e lhe revelo que sou portuguesa, ela fica logo toda contente. Conta-me que tem montes de amigos portugueses, e que adora portugueses, porque os portugueses são todos alegres, divertidos, e por aí fora... Normalmente,perante todo este entusiasmo, limito-me a curvar os lábios num sorriso forçado. Mas o que me apetece mesmo é responder-lhe com num tom trocista: "Desculpa lá, mas eu vou desiludir-te!".
Sou uma pessoa bastante reservada. Salvo raríssimas excepções, não me sinto à vontade junto de desconhecidos, e só ao cabo de algum tempo consigo confiar neles. Sou, também, muito séria. Dificilmente rio e ainda mais dificilmente faço alguém rir. Isto faz de mim uma das piores companhias possíveis para uma festa. E para muitas outras coisas.
Todavia, persisto em contrariar a minha natureza anti-social: temendo morrer sozinha rodeada de cães, de vez em quando concordo em aparecer numa ou noutra festa, com o intuito de fazer amigos.
Hoje aceitei um convite para uma festa de um mexicano com quem devia ter convivido um total de vinte minutos. Quando ele me telefonou para descrever a dita festa, eu estava num ruidoso pub, e não compreendi tudo o que ele me disse. Por isso, ao sair de casa, estava convencida de que ia assistir a um concerto "mariachi" numa festa plena de convidados jovens que se desconheciam.
Em vez disso deparei-me com uma humilde festa familiar, em que os convidados tinham ou dois anos ou mais de trinta, e eram amigos de longa data. Para mim, foi como entrar na arena de um circo romano, onde variadas feras me esperavam. As pessoas faziam turnos ao redor dos fogões, preparando uma série de pratos, incluindo um português. Para desilusão geral, eu não sabia como preparar o tal prato português, pelo que não os pude ajudar. O mexicano que me convidara desafiou-me para um jogo de ping-pong. Tentei recusar amavelmente, sabendo que qualquer tentativa de participar num desporto organizado resultaria na minha humilhação. Mas ele tanto insistiu que não pude negar. Felizmente para mim, o meu adversário foi paciente e ao fim de alguns serviços estava finalmente a apanhar o jeito. Foi então que ele chamou outro rapaz (leia-se homem) para jogar comigo. Este jogava tão mal quanto eu, pelo que o ambiente tornou-se pesado e depressa o jogo terminou. Sugeri-lhe que jogássemos antes cartas. Mais por educação do que por vontade ele concordou. Não me importei: depois de experimentar o "pepe-rápido", até o jogador mais céptico se diverte a valer com um baralho de cartas.
Pela primeira vez, isso não aconteceu.
Depois de algumas vazas, já estava à espera que qualquer acaso pusesse um fim àquele jogo. As minhas preces foram ouvidas, mas da pior maneira possível: uma adorável bebé aproximou-se de mim e pediu-me para jogar. Aliviado, o meu oponente largou o seu baralho e foi para a cozinha, deixando-me a sós com a menina.
Não tenho jeito nenhum para crianças. Normalmente, graças a algum maravilhoso instinto, os miúdos evitam-me. Alguns choram só de olhar para mim. Acho que até hoje, só um bebé se tinha afeiçoado a mim. Esta foi a segunda. Insegura, concordei em jogar com ela. Basicamente, as duas púnhamos uma carta de cada vez na mesa, e, independentemente das nossas jogadas, ela ganhava e eu perdia.
Quando ela se cansou do nosso jogo, eu olhei para o relógio sobre a lareira. Nem acreditei que ainda só tinha passado uma hora.
Esperei mais um pouco, e depois, educadamente, despedi-me de toda a gente e saí. Mas, antes que eu o fizesse, um espanhol teve a simpatia de me revelar que entendia português. "Ai, é?" disse eu. "Olha, obrigadinha, agora é tarde demais, não?!" pensei eu.
Eles foram simpáticos. Sem dúvida. Um português como deve ser, daqueles que falam alto e riem com vontade e que são a alma da festa teria apreciado aquele tempinho.
Eu é que sou assim.
Sou uma pessoa bastante reservada. Salvo raríssimas excepções, não me sinto à vontade junto de desconhecidos, e só ao cabo de algum tempo consigo confiar neles. Sou, também, muito séria. Dificilmente rio e ainda mais dificilmente faço alguém rir. Isto faz de mim uma das piores companhias possíveis para uma festa. E para muitas outras coisas.
Todavia, persisto em contrariar a minha natureza anti-social: temendo morrer sozinha rodeada de cães, de vez em quando concordo em aparecer numa ou noutra festa, com o intuito de fazer amigos.
Hoje aceitei um convite para uma festa de um mexicano com quem devia ter convivido um total de vinte minutos. Quando ele me telefonou para descrever a dita festa, eu estava num ruidoso pub, e não compreendi tudo o que ele me disse. Por isso, ao sair de casa, estava convencida de que ia assistir a um concerto "mariachi" numa festa plena de convidados jovens que se desconheciam.
Em vez disso deparei-me com uma humilde festa familiar, em que os convidados tinham ou dois anos ou mais de trinta, e eram amigos de longa data. Para mim, foi como entrar na arena de um circo romano, onde variadas feras me esperavam. As pessoas faziam turnos ao redor dos fogões, preparando uma série de pratos, incluindo um português. Para desilusão geral, eu não sabia como preparar o tal prato português, pelo que não os pude ajudar. O mexicano que me convidara desafiou-me para um jogo de ping-pong. Tentei recusar amavelmente, sabendo que qualquer tentativa de participar num desporto organizado resultaria na minha humilhação. Mas ele tanto insistiu que não pude negar. Felizmente para mim, o meu adversário foi paciente e ao fim de alguns serviços estava finalmente a apanhar o jeito. Foi então que ele chamou outro rapaz (leia-se homem) para jogar comigo. Este jogava tão mal quanto eu, pelo que o ambiente tornou-se pesado e depressa o jogo terminou. Sugeri-lhe que jogássemos antes cartas. Mais por educação do que por vontade ele concordou. Não me importei: depois de experimentar o "pepe-rápido", até o jogador mais céptico se diverte a valer com um baralho de cartas.
Pela primeira vez, isso não aconteceu.
Depois de algumas vazas, já estava à espera que qualquer acaso pusesse um fim àquele jogo. As minhas preces foram ouvidas, mas da pior maneira possível: uma adorável bebé aproximou-se de mim e pediu-me para jogar. Aliviado, o meu oponente largou o seu baralho e foi para a cozinha, deixando-me a sós com a menina.
Não tenho jeito nenhum para crianças. Normalmente, graças a algum maravilhoso instinto, os miúdos evitam-me. Alguns choram só de olhar para mim. Acho que até hoje, só um bebé se tinha afeiçoado a mim. Esta foi a segunda. Insegura, concordei em jogar com ela. Basicamente, as duas púnhamos uma carta de cada vez na mesa, e, independentemente das nossas jogadas, ela ganhava e eu perdia.
Quando ela se cansou do nosso jogo, eu olhei para o relógio sobre a lareira. Nem acreditei que ainda só tinha passado uma hora.
Esperei mais um pouco, e depois, educadamente, despedi-me de toda a gente e saí. Mas, antes que eu o fizesse, um espanhol teve a simpatia de me revelar que entendia português. "Ai, é?" disse eu. "Olha, obrigadinha, agora é tarde demais, não?!" pensei eu.
Eles foram simpáticos. Sem dúvida. Um português como deve ser, daqueles que falam alto e riem com vontade e que são a alma da festa teria apreciado aquele tempinho.
Eu é que sou assim.
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Saudade
Às vezes, quando me deito, penso que o meu dia não mudou o dia de ninguém. Parece que, subitamente, acordo. Como se pela primeira vez naquele dia estivesse consciente.
Sem eles aqui, tudo parece vago. É muito fácil distrair-me. Apesar de recordar todos os dias os meus objectivos, é comum dispersar a minha atenção, e dar comigo a divagar.
Se tudo correr conforme planeado, o começo da minha vida terá um final feliz, e todos os dias o sol vai brilhar por detrás das nuvens espessas que constantemente cobrem o céu deste país frio, onde as pessoas são tão mais elegantes e vivem em escuros palacetes de tijoleira.
Ficar aqui trazer-me-ia inúmeras vantagens a nível profissional, tornar-me-ia mais matura, e permitir-me-ia um estilo de vida muito diferente daquele que levava na minha terra.
Mas eles não vão estar aqui comigo.
Indigna-me que eles não possam partilhar esta vida comigo. Revolta-me.
Para viver a vida que eu queria, não tinha de me separar deles. Bastava que o meu país no-la pudesse oferecer.
"Eu volto, eu volto..." vou repetindo.
E se não voltar?
Então já não sei o que fazer.
Amanhã vou estar melhor.
Sem eles aqui, tudo parece vago. É muito fácil distrair-me. Apesar de recordar todos os dias os meus objectivos, é comum dispersar a minha atenção, e dar comigo a divagar.
Se tudo correr conforme planeado, o começo da minha vida terá um final feliz, e todos os dias o sol vai brilhar por detrás das nuvens espessas que constantemente cobrem o céu deste país frio, onde as pessoas são tão mais elegantes e vivem em escuros palacetes de tijoleira.
Ficar aqui trazer-me-ia inúmeras vantagens a nível profissional, tornar-me-ia mais matura, e permitir-me-ia um estilo de vida muito diferente daquele que levava na minha terra.
Mas eles não vão estar aqui comigo.
Indigna-me que eles não possam partilhar esta vida comigo. Revolta-me.
Para viver a vida que eu queria, não tinha de me separar deles. Bastava que o meu país no-la pudesse oferecer.
"Eu volto, eu volto..." vou repetindo.
E se não voltar?
Então já não sei o que fazer.
Amanhã vou estar melhor.
Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
Não me apetece trabalhar. Mas também não sou capaz de sair e de me divertir, porque sei que devia estar a trabalhar.
Hoje não consigo concentrar-me. Já tentei. Vezes sem conta.
Só consigo pensar numa coisa: bolachas. Quero mesmo fazer bolachas.
Não para as comer... Só para estar ocupada a fazer algo que não me obrigue a pensar.
Detesto esta sensação. A maioria das pessoas adora quando não quer fazer nada e tem a oportunidade de não fazer nada.
Eu detesto.
Quero ter sempre vontade de fazer qualquer coisa. Se me apetecesse realmente desenhar, escrever, sair... Ao menos eu estaria a fazer alguma coisa. Assim, estou só para aqui a ser mole.
Detesto isto. Detesto, detesto, detesto...
Quase consigo ouvir as minhas professoras de desenho. Sei que não as ouviria se estivesse a desenhar. Quase consigo ouvir a minha professora de guião. Sei que não a ouviria se estivesse a escrever. Quase consigo ouvir o meu professorde 3d. SEi que não o ouviria se estivesse a praticar. Quase consigo sentir a gordura a acumular-se nas minhas ancas. Sei que não sentiria isto se me estivesse a mexer.
Tenho demasiadas vozes na minha cabeça. Quem me dera que elas se calassem de uma vez por todas.
Será que é demasiado tarde para ligar o forno e fazer as bolachas?
Ah, merda, não tenho os ingredientes todos...
Hoje não consigo concentrar-me. Já tentei. Vezes sem conta.
Só consigo pensar numa coisa: bolachas. Quero mesmo fazer bolachas.
Não para as comer... Só para estar ocupada a fazer algo que não me obrigue a pensar.
Detesto esta sensação. A maioria das pessoas adora quando não quer fazer nada e tem a oportunidade de não fazer nada.
Eu detesto.
Quero ter sempre vontade de fazer qualquer coisa. Se me apetecesse realmente desenhar, escrever, sair... Ao menos eu estaria a fazer alguma coisa. Assim, estou só para aqui a ser mole.
Detesto isto. Detesto, detesto, detesto...
Quase consigo ouvir as minhas professoras de desenho. Sei que não as ouviria se estivesse a desenhar. Quase consigo ouvir a minha professora de guião. Sei que não a ouviria se estivesse a escrever. Quase consigo ouvir o meu professorde 3d. SEi que não o ouviria se estivesse a praticar. Quase consigo sentir a gordura a acumular-se nas minhas ancas. Sei que não sentiria isto se me estivesse a mexer.
Tenho demasiadas vozes na minha cabeça. Quem me dera que elas se calassem de uma vez por todas.
Será que é demasiado tarde para ligar o forno e fazer as bolachas?
Ah, merda, não tenho os ingredientes todos...
Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Não te sei dizer, amigo,
Se sou ou não nómada.
Se sou sedenta de aventura,
Ou de calmaria.
A verdade, é que me custa
Escolher entre a carne e o sonho.
Entre o momento e a saudade...
Percebes?
É que, na minha ânsia de ser Sol,
Eu rejeito qualquer gota de Chuva.
À há tanto tempo o faço,
Que já não consigo distinguir uma coisa da outra,
E já não sei se sou o que finjo,
Ou o que escondo.
Se sou ou não nómada.
Se sou sedenta de aventura,
Ou de calmaria.
A verdade, é que me custa
Escolher entre a carne e o sonho.
Entre o momento e a saudade...
Percebes?
É que, na minha ânsia de ser Sol,
Eu rejeito qualquer gota de Chuva.
À há tanto tempo o faço,
Que já não consigo distinguir uma coisa da outra,
E já não sei se sou o que finjo,
Ou o que escondo.
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